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Reinventando o entretenimento

Mercado de shows, festas e eventos em geral sofre com

a crise, amarga incertezas, mas segue criando alternativas

Por Cris Rosa

Se existe um setor profundamente afetado pela pandemia do coronavírus, é o do entretenimento. Pela sua capacidade de atrair centenas ou até milhares de pessoas em um mesmo espaço, estima-se que esse vai ser um dos últimos a voltar a normalidade. Em quanto tempo, ainda é uma incógnita.

A única coisa certa é que as mudanças no mercado do entretenimento já são uma realidade. As lives cresceram consideravelmente como forma de entretenimento, renda e solidariedade, e no último mês vimos a retomada de um formato que fez muito sucesso nas décadas de 1940 e 1950, o drive-in. Uma alternativa viável em tempos em que o mínimo de contato pessoal representa maior segurança.

Segundo levantamento da Data Sim, núcleo de pesquisa da Semana Internacional de Música de São Paulo (SIM São Paulo), realizado em Abril com mais de 500 produtoras do país, o coronavírus já havia causado prejuízo de quase R$500 milhões somente no mercado da música, com o cancelamento de shows, festivais e outros eventos. Em Macaé, claro, não seria diferente. O setor cultural vem sofrendo os impactos causados pela pandemia e muitos artistas viram suspensa sua única forma de sustento.

Como sobreviver diante da nova realidade? Se reinventando, como fez a cantora Andréa Martins. A artista teve a ideia de fazer serenatas em frente as casas, levando alegria as pessoas nesse período de isolamento. “O momento é de se reinventar. Alguns projetos estão fazendo com que poucos músicos estejam trabalhando, e um deles é a serenata que venho fazendo pela cidade e tem dado bastante resultado positivo. Posso fazer o que amo e dar trabalho aos músicos que me acompanham”, destaca.

A ideia surgiu a partir de uma amiga de Andréa que queria comemorar as bodas de sessenta anos de casados dos pais. “Fui com meu pequeno dom e meu violonista Saulo Marinho, cantamos em frente a janela do prédio deles por 30 minutos, uma noite linda e repleta de emoção. Aí pensei ‘preciso fazer isso mais vezes pra mais pessoas’. Assim, fiz uma parceria com a Mega Dance, que tem um mini trio elétrico, e agora saímos por aí levando a música para acalentar os corações”, conta Andréa, que também tem investido nas lives e lançou ontem o primeiro single.

A aceleração em direção ao universo digital também é uma forma de se reinventar para resistir à crise causada pela pandemia. As lives, sejam as mais caseiras ou as superproduções, têm sido a forma de entretenimento nesse momento em que é preciso evitar as aglomerações. A modalidade pode ser uma nova chance de negócios. “As lives estão aí e devem crescer, se monetizar para construção de uma nova forma empregatícia para os músicos, artistas, técnicos, lincados a ajuda a instituições de caráter beneficente”, acredita a produtora artística Agnes Williams, da AWT Produções. De fato, novos hábitos de consumo podem significar novas oportunidades a serem exploradas. Um levantamento feito pelo Deezer com mais de 11 mil pessoas revelou que 51% dos brasileiros entrevistados estão ouvindo mais músicas do que antes da pandemia.

Porém, para os artistas a questão não é tão simples. As apresentações requerem toda uma estrutura que gera gastos. “Entendo que mudanças aconteceram e que a gente precise criar formas de entretenimento. Porquê com pandemia ou não, o artista precisa estar em evidência. As lives foram uma ideia muito boa da gente continuar levando nosso nome e nossa alegria pro público, mas os gastos são grandes porquê é necessário estrutura de internet, filmagem profissional, som, entre outras coisas”, avalia Bruno Manhães, integrante do Samba da Vila. Além das apresentações virtuais, em que o público pode doar qualquer quantia, o grupo criou uma rifa no valor de R$50 para dar suporte aos músicos sem outras fontes de renda. O prêmio será um show exclusivo quando a pandemia passar. Mais informações disponíveis no perfil do instagram @sambadavilaoficial.

Nada será como antes?

A mudança na maneira de nos relacionarmos com as pessoas impõe novas regras de segurança e protocolos sanitários mais rígidos. Diante de um cenário que parece desesperançoso, há espaço para se pensar em caminhos alternativos? Qual será o cenário do entretenimento pós-coronavírus? Para Agnes Williams, a realização de eventos menores no futuro podem servir como forma de laboratórios para a tão sonhada volta.

“Enquanto não houver vacina, será preciso se acostumar com a nova realidade. O mercado pós-coronavírus pode ser a oportunidade para criar melhores padrões de comportamento mercadológico, vai depender de nós. Qual será o mundo pós-coronavírus? Que lições teremos aprendido? Como passaremos a lidar com a saúde? Como ficarão aspectos do cotidiano, como as relações de afeto, o mercado de consumo, a espiritualidade? Ninguém tem ainda essas respostas. O resultado vai depender de nossa compreensão dos acontecimentos, dos posicionamentos da sociedade civil, das atitudes socialmente responsáveis das empresas, dos profissionais, dos caminhos adotados pelos governantes. Em resumo: vai depender de nós e visualizo que dificilmente seremos os mesmos depois disso. Os novos padrões de comportamento provavelmente serão novos formatos. Os grandes shows e festivais não voltarão ao normal esse ano, pelo andar da pandemia. Acho que os menores, para poucas pessoas, será uma tendência natural. Nos últimos anos, tenho visto muitos artistas novos, em lugares pequenos. Já estamos tendo sinais de novos caminhos alternativos, eventos menores como forma de laboratórios, para essa volta”, comenta.

É nesse clima de ‘ensaio’ que a produtora cultural e cerimonialista Sheila Juvêncio, da Juvêncio Produções, tem atuado. Desde o mês de março todas as festas de debutantes e casamento agendadas foram adiadas, mas uma alternativa surgiu para quem não quis deixar a data passar em branco: a festa online. Até agora foram duas comemorações de 15 anos, seguindo à risca os protocolos de segurança. “A festa segue da maneira tradicional, com cerimonial, música, buffet, mas sem convidados. O diferencial é que conseguimos criar um ambiente onde o restante da família e amigos possam se fazer ‘presentes’ e se sentirem acolhidos mesmo online”, avalia.

Enquanto a pandemia não chega ao fim, será preciso buscar soluções. Em meio a incertezas, o que se sabe até o momento é que a realidade nunca mais será a mesma e que momentos de crise servem para reflexão.

“Devemos aprender com essa situação única na nossa história. Acredito que a grande oportunidade está no residual que essa situação toda vai deixar. Todos estamos no mesmo barco, ou seja, buscando soluções para não deixar o barco afundar. Neste momento, precisamos redescobrir as lições dadas a todos nós profissionais. O trabalho é de reformulação, o que a gente vê nos comportamentos, nas mudanças culturais e nos novos hábitos de consumo. Existem aí grandes oportunidades para usarmos novas ferramentas, com inovação, produtividade e sustentabilidade”, acredita Agnes.

E como o show tem que continuar – já diz a letra do samba gravado pelo grupo Fundo de Quintal -, mesmo com a crescente desvalorização dos profissionais da cultura, Andréa Martins se sente esperançosa. “Penso que aos poucos voltaremos ao nosso normal desejado, com cautela acredito que teremos nosso trabalho de volta, que é levar a arte para alimentar e salvar os dias das pessoas. Que venha a vacina Brasil!”. Que assim seja!

 

 

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